O terço despregado

O terço despregado

por Oscar D’Ambrosio

A poética de Gastão Debreix tem como base dois movimentos que se complementam: de um lado, existe a intensa criatividade na maneira de realizar as suas composições, sempre tendo em vista a busca de soluções visuais em que existam decisões ricas tanto em termos de jogos de linguagem como em procedimentos plásticos.

Existe ainda outro aspecto igualmente muito importante: uma certa alegria, expressa no humor de muitas elaborações e na ausência de pedantismo. Daí muitas obras parecerem simples na execução. Embora sejam fruto de um gradual processo de amadurecimento da linguagem, apresentam a falsa impressão de que foram feitas sem uma reflexão adensada pela vivência poética e artística.

Um verbo pode ser o elemento detonador de todo um pensar sobre significados e significantes que não dispensa a emoção. Aliás, muito pelo contrário, ela coloca o fazer plástico e artístico como um gradual caminhar por uma vereda repleta de sentidos e mistérios. Não, portanto, respostas fáceis de interpretação, mas um pensar constante sobre o próprio sentido da vida e da arte na sociedade contemporânea.

A visualidade proposta pode ter seu marco inicial na própria discussão de como o cotidiano pode ser a pedra de toque de um criar em que falares e silêncios podem ter o mesmo peso. As sugestões propostas abrem não só possibilidades de interpretação, mas, principalmente, a escolha do papel da arte como maneira de dialogar com um sentimento de estar no mundo, mais ou menos agradável de acordo com a perspectiva adotada.

A sensação de movimento proposta em várias obras diz muito respeito a uma concepção plástica que preza a liberdade acima de tudo. Não existe o fascínio pela fórmula pronta, mas pelo pensar a arte como um campo de alternativas que demandam a presença do dinamismo do vento com seu potencial transformador e seu grito visual de alerta que o único pecado na arte é não ousar criar.

Seja por intermédio da configuração, da maneira de disposição das letras no espaço ou da cor, Debreix nos traz um pensamento em que as tramas, sejam de forma mais ou menos explícita, funcionam como o tom contagiante. Seja pela justaposição ou sobreposição, o poeta e artista plástico aponta para a construção de um olhar sobre o mundo que obriga o observador a repensar seus conceitos, paradigmas e parâmetros.

Tanto nos raciocínios mais geométricos e matemáticos ou nos mais livres, em que surge um lirismo construtivo de relações espaciais menos controladas, mantém-se uma questão primordial: o sentido da poesia. A palavra, que se torna uma prática constante, é explorada de diversas maneiras, tanto de circunstâncias mais próximas do concretismo como em propostas mais imediatas das artes visuais.

O refletir sobre a palavra terço, nos seus dois significados mais evidentes (o religioso e o matemático), cristaliza como o artista sabe construir as tramas de um pensamento pleno de mergulhos nas características basilares da poesia de qualidade: a exploração de suas distâncias: a existente entre o mundo imaginado e o considerado real; e a presente no que se deseja fazer e o que de fato se atinge.

Analogamente, Gastão Debreix prega em nosso olhar – e por que não em nossa alma? – sensações que não se despregam facilmente. Após ler seus textos e ver suas imagens fica colado em cada leitor ou observador o sentimento de que somos apenas um terço talvez privilegiado do universo da comunicação, integrado pelo emissor, pela obra e pelo receptor. Onde estamos nesse jogo? Talvez em todos os lugares ao mesmo tempo, como terço despregado da religião ou terço matemático pregado na parede da existência.

Oscar D’Ambrosio, doutorando em Educação, Arte e História da Cultura na Universidade Mackenzie, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP. Integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA – Seção Brasil).

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