Gastão Debreix: Um Fazedor

por Omar Khouri

Um fazedor. Na acepção mesma daquele que faz/constrói – artesão exímio que é – até aquela que ficou definitiva: criador: poeta, do grego poietés, agente derivado do verbo fazer (poiéo). Do verbal ao não-verbal: um fazedor que transita entre os muitos códigos, um poeta, como se diria lá pelos idos de 70, intersemiótico. Mãos e cérebro em ação e eis que matérias-primas se trans-formam. Um toque de Midas. Gastão Debreix tem o dom de transformar trastes, peças desprezíveis (cacos de madeira, materiais com as marcas da destruição, lascas) ou mesmo materiais pré-artísticos, em objetos de arte.

Constrói, orientado por um pensamento determinante, objetos com (neste caso é um designer) ou sem utilidade prática, os quais dota da dimensão estética. Cadeiras, jogos, caixas de todos os formatos, quadros. Sim: QUADROS! Objetos de ver e sentir: tactilidade, de mistura com algo odorífico, condenado a desaparecer com o tempo. Sua matéria-prima preferida: a madeira, a qual transforma, fazendo-a conformar-se a seu bel-prazer: a madeira obedece.

Xiloestesia. Xilofacturas se nos apresentam e é a madeira o que importa. Não o mero suporte, mas a madeira-ela-mesma que se impõe e nos obriga a lê-la (os signos – complexos sígnicos – querem ser lidos, obrigam-nos a lê-los, decodificá-los): Imbuia. Marfim. Peroba. Cerejeira. Ipê. Cedro. Jatobá. Pinho. Cedro Rosa. Pau Roxinho. Vinhático. Mogno. Daí, o artesão-artista estabelece um diálogo prolífico com a tradição, das mais inventivas nas Artes Plásticas: Maliévitch. Mondrian. Albers. Geraldo de Barros. A técnica da Marchetaria responde às necessidades que Gastão Debreix, o Júnior, tem de se expressar artisticamente (e ele sabe que a função estética da linguagem – da palavra grafada à madeira, a função poética num sentido lato, poderia dizer, responde a uma necessidade dos humanos, como as demais funções, só que a uma necessidade do espírito. Sempre.) Da seleção dos materiais à composição, o mencionado toque que transforma, redimensiona, posto que norteado por cerebralismo e sensibilidade, possibilitado pela competência que ultrapassa a chamada excelência num certo (a)fazer.

Compulsivamente Gastão trabalha. Não resiste ao ímpeto de produzir, dentro do universo artesanal cuja iniciação deve a Gastão Debreix, o Pai. Constrói, Gastão, seus objetos em madeira: Xilopoemas.

Omar Khouri é poeta, escritor e professor na Faap e Unesp. Texto escrito para folder da exposição no Centro Cultural de Bauru – Galeria Angelina W. Messenberg. Abertura em 27 de outubro de 2000.

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