Diálogo – 30 anos de arte e poesia de Gastão Debreix

Gastão Debreix é um “artista-poeta” que se encontra em permanente trânsito. Seja pelos distintos papéis que desempenha, pela constante experimentação de suportes ou pela miscelânea de saberes que aplica em seus trabalhos. Debreix iniciou sua incursão no meio artístico e poético influenciado diretamente pela sua trajetória pessoal e indiretamente pela poesia visual e pela pop art. Filho de um respeitado mestre-artesão e talentoso marceneiro, que foi seu professor na escola técnica, desde a infância viveu cercado por madeiras, cerâmicas, tintas e diversas ferramentas artesanais. Uma proximidade com o labor manufaturado que se tornou fundamental para entender sua produção atual, caracterizada por trabalhos manuais e por uma vasta pesquisa de materiais. Certa vez, sentenciou: “Sou um artista-operário”. Uma operação que começou a se tornar artística por meio de caligramas poéticos, publicados na revista Artéria nº 5, em 1991, o que o aproximou definitivamente do universo da poesia visual. A palavra se tornou, desde então, sua principal ferramenta de trabalho, apesar dos inúmeros instrumentos manuais a que recorre com frequência para formalizar suas obras. A exposição DIÁLOGO apresenta um recorte desse percurso, reunindo produções antigas, nas quais a dimensão verbal predominava, em conjunto com as mais recentes, conectadas, sobretudo, às estratégias originárias do meio das artes visuais, mas também da poesia. O ready-made de Marcel Duchamp, as colagens e assemblages de materiais do nouveau réalisme e da pop art, o uso sintético e caligráfico das palavras dos poetas concretos são algumas influências que podem ser percebidas em suas obras. Grande parte foi concebida inicialmente no papel – tanto os poemas como as obras plásticas. Posteriormente, foram formalizados como serigrafias, esculturas, estênceis, objetos e instalações. Um procedimento que aproximou Debreix de outros artistas-poetas, como Augusto de Campos e Arnaldo Antunes, que também realizaram distintas “traduções intersemióticas” de seus poemas. O termo foi utilizado pelo artista e curador Julio Plaza para descrever obras poéticas multidisciplinares expandidas para além dos livros e publicações. Um procedimento recorrente na poesia visual, que busca, por meio de experimentações formais, de suportes e materiais, amplificar o significado embutido nos poemas. O rigor se tornou outra característica de sua produção, uma vez que o artista executa pessoalmente todas as etapas envolvidas na formalização das obras. Debreix monta o chassi, a moldura e tensiona as telas que utiliza, prepara o substrato das tintas e imprime suas próprias serigrafias. Trabalha ainda com marchetaria e se arrisca com qualquer material que encontre um significado criativo, sobretudo o papel e a madeira, mas também a fórmica, o ferro, as tintas e outros de caráter industrial e objetos apropriados. Integram a exposição DIÁLOGO serigrafias de diferentes períodos e formatos, incluindo uma caixa em madeira e marchetaria feita pelo artista, que conta com dez trabalhos serigráficos em pequeno formato; diferentes versões de Tramas, série de obras concebidas a partir da apropriação de pequenos pedaços de latas de tinta de parede, dobradas e trançadas; objetos poéticos, com destaque para Visão frágil e Visão crítica, inspirados no procedimento duchampiano do ready-made; além de Poesia, considerado pelo professor Omar Khouri “um dos melhores ideogramas dos anos 1990”, apresentado aqui em duas versões distintas, uma serigrafia e um objeto em acrílico. A obra Diálogo, que dá título à exposição, traduz silenciosamente o significado da obra de Debreix, assim como a música 4’33” fez com relação à produção de John Cage, ou o quadro branco com a de Malevitch, ou o cachimbo com a de Magritte. A imagem de dois perfis humanos, composta por uma meticulosa colagem de fórmicas coloridas, típica dos cartoons apropriados pela pop art, tornou-se um verdadeiro poema sem palavras desenhado pelo artista. Um diálogo interno que acontece há cerca de 30 anos e que o público pode finalmente escutar, ler, sentir e ver.

Daniel Rangel – curador

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