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Gastão Debreix: Um monólogo

por Janira Fainer Bastos

Por volta de 1958 as idéias de Duchamp e do surrealismo filtradas através do expressionismo abstrato fundem-se na corrente européia “nouveau réalisme” e na americana “assemblage”. Nesse momento muitos artistas desejaram ter sido influenciados por eles, embora a maioria não o tenha, pois idéias são uma coisa e o que acontece outra.

Vejo Gastão como o herdeiro dessas correntes com algo mais: ele introduz na arte o prazer de pintar no sentido mais clássico da palavra.

Em sentido técnico, ele produz seus trabalhos espontaneamente. Ele vai negar por três vezes, como um conhecido personagem bíblico. Para não admitir levará em consideração o sentido consciente de uma dada trama/trança e suas alterações sucessivas, a contínua reação direta à medida que trabalha e altera seus trabalhos. De repente, acontece algo maravilhoso e ele se dá por satisfeito com o resultado e encontra centenas de espectadores sentindo o mesmo. Mas, Gastão produz para si mesmo, embora lhe agrade a reação de outras pessoas às suas expiriências, seus recortes, suas mensagens, pois seu trabalho é feito com frequência de palavras.

Do meu ponto de vista o artista vê e sente não apenas formas, mas também palavras. A palavra está presente em toda parte na vida moderna: sofre-se um bombardeio dela diariamente. E sob o ponto de vista físico, as palavras também são formas.

E por último a pergunta: qual a função da cor em seu trabalho? É provável que ele responda nenhuma. Eu digo que a relação dominante entre a cor e o desenho é a chave para a apreciação de sua produção. Como na poesia, suas cores são alusões, linhas e cores que sugerem uma atmosfera imaginativa, a condição primeira de sua arte.

Como artista, Gastão Debreix traz à tona suas emoções mais escondidas e tem a consciência imediata de que só ele pode dar vida poeticamente à sua obra.

Janira Fainer Bastos é professora de Estética e História da Arte no Departamento de Artes da Unesp Bauru. Texto escrito para convite da exposição “Gravura, objeto, pintura”.

 

 

Um lance de razão e sensibilidade

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por Omar Khouri

Embora soubesse de sua existência há mais tempo, tive os primeiros contatos com Gastão Debreix em Pirajuí, a propósito de Poesia, na segunda metade dos anos de 1980. Dado o fato de eu ser poeta e coeditor de ARTÉRIA, ele me trouxe poemas que muito se aproximavam da prática dos caligramas, donde se podia depreender que eram exercícios, ainda incipientes, de alguém “do ramo”. Dois deles acabaram por integrar ARTÉRIA 5 e, daí para diante, Gastão passou a ser um contumaz colaborador da revista, publicação esta que pôde registrar a sua grande evolução, em termos qualitativos, e que acolheu o melhor de sua produção propriamente poética. Falar no Gastão Debreix produtorde- linguagem é falar em criação intersemiótica, em encontro de códigos, em “poesia visual”. Falar em poesia visual no Brasil é relacionar nomes de relevo, onde necessariamente surge o de Gastão Debreix que, coisa rara, possui quatro ou cinco peças dentro do referido universo poético, que são obrigatórias em toda antologia do gênero que se preze. Na tentativa de apresentar o Gastão Debreix ser-inteligente-e-sensível-e-que-produz-trabalhos-que-roçam-o-admirável apontaria um seu poema escolhido em meio a uma produção não-volumosa, porém não-exígua, de qualquer modo, densa: a fatura POESIA, de 1991, que teve edição autônoma no mesmo ano – impressão serigráfica sobre papel. Em seguida, saiu em ARTÉRIA 6, ano de 1992, também impressão serigráfica sobre papel. Trata-se de uma das incursões metalinguísticas de Gastão, um dos trabalhos que mais o definem e o aquilatam, um dos melhores poemas visuais de quantos foram produzidos na última década do século passado. Olho tipográfico (tipomórfico, eu diria) aguçado, percebe coisas de uma sutileza ímpar e descobre outras tantas inúteis, não fora a dimensão lúdica e a gratuidade da própria Arte que, paradoxalmente é inútil e essencial. Coisa de Humanos-Seres. Tomando a palavra POESIA em caixa alta (uma helvética que subjaz e estrutura), primeiro percebe que nenhuma letra é repetida na sagrada palavra (nem sequer as redundantes vogais) e as superpõe centralizando, percebendo que em alguns pontos – em alguns pontos apenas – elas se encontram. A cada encontro – tendo codificado um comportamento gráfico para cada letra – vai se formando um desenho, que só se configura plenamente no ponto único – este sim! – em que as seis letras coincidem: resulta, daí, um quadrado com uma malha como que florida (um ladrilhado) e que o autor, então, tinge de amarelo para destacá-la ainda mais, como que querendo dizer: “Poesia é condensação”. Ao pé do trabalho uma espécie de escala-legenda com a progressão POESIA, que é, então, o que resulta da tal superposição. Se alguma semelhança há em POESIA com os chamados poemas semióticos, esta é casual, pois trata-se de uma realização mais feliz do que qualquer daqueles poemas dos anos de 1960, malgrado a sua importância para a época. O poema se constrói: todo o necessário rigor é colocado a serviço da sensibilidade para que o poema se configure pleno. Num tempo em que tudo se apresenta como disponibilidade para os poetas/artistas, que descobrem que tal técnica possibilita uma linguagem e, daí, a trabalham, fazendo coisas admiráveis, Gastão Debreix se apresenta como um artista-síntese, que absorve, matuta, elabora mentalmente e faz/constrói, sem medo do artesanato, que domina como poucos (o poeta labora mentalmente e, em seguida, manipula, manuseia, manufatura, sem medo de que mãos comprometam cérebro). Sem pré-conceitos. Da cor à letra, da madeira ao papel e à tela, da marchetaria à impressão serigráfica, do lápis ao teclado do computador. Razão e sensibilidade. Assim, Gastão Debreix vai perfazendo o seu caminho artístico-poético, misturando o ontem com o hoje e se projetando para o sempre. O futuro dirá melhor de suas grandezas. Este livro que ora se publica traz alguns fortes indícios da qualidade de que o trabalho de Gastão Debreix é portador. Dignifica ainda mais a poesia que o Brasil tem produzido, para entregá-la ao Mundo.

Omar Khouri, Mestre e Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUCSP, Livre-Docente em Teoria e Crítica da Arte pelo IA – UNESP. Professor Adjunto do Departamento de Artes Plásticas do IA – UNESP, campus de São Paulo. É poeta, editor e crítico de linguagens.

 

tercoO terço despregado

por Oscar D’Ambrosio

A poética de Gastão Debreix tem como base dois movimentos que se complementam: de um lado, existe a intensa criatividade na maneira de realizar as suas composições, sempre tendo em vista a busca de soluções visuais em que existam decisões ricas tanto em termos de jogos de linguagem como em procedimentos plásticos.

Existe ainda outro aspecto igualmente muito importante: uma certa alegria, expressa no humor de muitas elaborações e na ausência de pedantismo. Daí muitas obras parecerem simples na execução. Embora sejam fruto de um gradual processo de amadurecimento da linguagem, apresentam a falsa impressão de que foram feitas sem uma reflexão adensada pela vivência poética e artística.

Um verbo pode ser o elemento detonador de todo um pensar sobre significados e significantes que não dispensa a emoção. Aliás, muito pelo contrário, ela coloca o fazer plástico e artístico como um gradual caminhar por uma vereda repleta de sentidos e mistérios. Não, portanto, respostas fáceis de interpretação, mas um pensar constante sobre o próprio sentido da vida e da arte na sociedade contemporânea.

A visualidade proposta pode ter seu marco inicial na própria discussão de como o cotidiano pode ser a pedra de toque de um criar em que falares e silêncios podem ter o mesmo peso. As sugestões propostas abrem não só possibilidades de interpretação, mas, principalmente, a escolha do papel da arte como maneira de dialogar com um sentimento de estar no mundo, mais ou menos agradável de acordo com a perspectiva adotada.

A sensação de movimento proposta em várias obras diz muito respeito a uma concepção plástica que preza a liberdade acima de tudo. Não existe o fascínio pela fórmula pronta, mas pelo pensar a arte como um campo de alternativas que demandam a presença do dinamismo do vento com seu potencial transformador e seu grito visual de alerta que o único pecado na arte é não ousar criar.

Seja por intermédio da configuração, da maneira de disposição das letras no espaço ou da cor, Debreix nos traz um pensamento em que as tramas, sejam de forma mais ou menos explícita, funcionam como o tom contagiante. Seja pela justaposição ou sobreposição, o poeta e artista plástico aponta para a construção de um olhar sobre o mundo que obriga o observador a repensar seus conceitos, paradigmas e parâmetros.

Tanto nos raciocínios mais geométricos e matemáticos ou nos mais livres, em que surge um lirismo construtivo de relações espaciais menos controladas, mantém-se uma questão primordial: o sentido da poesia. A palavra, que se torna uma prática constante, é explorada de diversas maneiras, tanto de circunstâncias mais próximas do concretismo como em propostas mais imediatas das artes visuais.

O refletir sobre a palavra terço, nos seus dois significados mais evidentes (o religioso e o matemático), cristaliza como o artista sabe construir as tramas de um pensamento pleno de mergulhos nas características basilares da poesia de qualidade: a exploração de suas distâncias: a existente entre o mundo imaginado e o considerado real; e a presente no que se deseja fazer e o que de fato se atinge.

Analogamente, Gastão Debreix prega em nosso olhar – e por que não em nossa alma? – sensações que não se despregam facilmente. Após ler seus textos e ver suas imagens fica colado em cada leitor ou observador o sentimento de que somos apenas um terço talvez privilegiado do universo da comunicação, integrado pelo emissor, pela obra e pelo receptor. Onde estamos nesse jogo? Talvez em todos os lugares ao mesmo tempo, como terço despregado da religião ou terço matemático pregado na parede da existência.

Oscar D’Ambrosio, doutorando em Educação, Arte e História da Cultura na Universidade Mackenzie, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP. Integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA – Seção Brasil).

 

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Gastão Debreix: Um Fazedor

por Omar Khouri

Um fazedor. Na acepção mesma daquele que faz/constrói – artesão exímio que é – até aquela que ficou definitiva: criador: poeta, do grego poietés, agente derivado do verbo fazer (poiéo). Do verbal ao não-verbal: um fazedor que transita entre os muitos códigos, um poeta, como se diria lá pelos idos de 70, intersemiótico. Mãos e cérebro em ação e eis que matérias-primas se trans-formam. Um toque de Midas. Gastão Debreix tem o dom de transformar trastes, peças desprezíveis (cacos de madeira, materiais com as marcas da destruição, lascas) ou mesmo materiais pré-artísticos, em objetos de arte. Constrói, orientado por um pensamento determinante, objetos com (neste caso é um designer) ou sem utilidade prática, os quais dota da dimensão estética. Cadeiras, jogos, caixas de todos os formatos, quadros. Sim: QUADROS! Objetos de ver e sentir: tactilidade, de mistura com algo odorífico, condenado a desaparecer com o tempo. Sua matéria-prima preferida: a madeira, a qual transforma, fazendo-a conformar-se a seu bel-prazer: a madeira obedece. Xiloestesia. Xilofacturas se nos apresentam e é a madeira o que importa. Não o mero suporte, mas a madeira-ela-mesma que se impõe e nos obriga a lê-la (os signos – complexos sígnicos – querem ser lidos, obrigam-nos a lê-los, decodificá-los): Imbuia. Marfim. Peroba. Cerejeira. Ipê. Cedro. Jatobá. Pinho. Cedro Rosa. Pau Roxinho. Vinhático. Mogno. Daí, o artesão-artista estabelece um diálogo prolífico com a tradição, das mais inventivas nas Artes Plásticas: Maliévitch. Mondrian. Albers. Geraldo de Barros. A técnica da Marchetaria responde às necessidades que Gastão Debreix, o Júnior, tem de se expressar artisticamente (e ele sabe que a função estética da linguagem – da palavra grafada à madeira, a função poética num sentido lato, poderia dizer, responde a uma necessidade dos humanos, como as demais funções, só que a uma necessidade do espírito. Sempre.) Da seleção dos materiais à composição, o mencionado toque que transforma, redimensiona, posto que norteado por cerebralismo e sensibilidade, possibilitado pela competência que ultrapassa a chamada excelência num certo (a)fazer. Compulsivamente Gastão trabalha. Não resiste ao ímpeto de produzir, dentro do universo artesanal cuja iniciação deve a Gastão Debreix, o Pai. Constrói, Gastão, seus objetos em madeira: Xilopoemas.

Omar Khouri é poeta, escritor e professor na Faap e Unesp. Texto escrito para folder da exposição no Centro Cultural de Bauru – Galeria Angelina W. Messenberg. Abertura em 27 de outubro de 2000.